sábado, 19 de fevereiro de 2011

ENTREVISTA - FANZINE LADO R- NATAL RN

No início do ano passado dei uma entrevista ao pessoal do fanzine Lado R, de Natal (RN). A edição # 9 saiu em setembro de 2010, se não me engano com tiragem 2000 cópias, gratuitas. Se você não conhece este, que é um dos melhores fanzines da atualidade, corra atrás!



PS: Para esta edição cedi um desenho para a capa também.

Entrevista feita por Leandro de Menezes.

Stewart Home define a arte como "inimiga do povo". O que pensa sobre essa provocação?
Penso que essa afirmação toma sentido se você pensar na arte como algo massificado ou enfiado goela abaixo do povo, mas acontece que o próprio conceito de arte é algo discutível.
A arte nos nossos tempos tem sido colocada em um pedestal inatingível, quase místico relegando ao povo uma posição passiva e de consumo. Penso que esse é um problema, pois a arte deveria ser feita também pelo povo, o feitio da arte em si é um processo poderoso que ajuda entender ao mundo, a si mesmo e a tornar a vida mais agradável.
São Paulo é uma cidade que oferece de modo democrático arte para todos - já que as ruas são tomadas pela arte urbana e há eventos gratuitos de todo tipo, mas ainda prevalece uma postura de “receber” ao invés de produzir a arte.
É por isso que a produção de arte popular (no fundo) tem um aspecto político de resistência, pois contra tudo e todos, apesar da falta de grana e de turnos pesados de trabalho, ainda há quem troque a novela por um cavaquinho para formar rodas de samba, só pelo prazer de fazer arte.
Eu acredito que a arte é amiga do povo. Ajuda a amansar os corações mais brutos, a entender sem falar, a pensar que existe algo mais que não se explica e até a esvaziar os bares. Não é a toa que o direito ao lazer está na constituição...

Você se considera um artista?
Sim, já que produzo arte.
Mas é complicado se rotular como artista... dá a impressão que se é um cara excêntrico, alheio à realidade e pelo contrário, neste monte de cascas que formam meu ego, acredito que em primeiro lugar venha o cidadão e o trabalhador. Depois vem o fato de que produzo arte como um modo de entender a vida, de responder a meus anseios pessoais e me relacionar com o mundo.
- Como você ganha a vida? (ganha dinheiro fazendo o quê?)
Sou formado em Letras e Pedagogia e atuo na educação há dez anos, hoje dirijo uma escola infantil no Jardim Ângela em São Paulo.
A arte não me dá dinheiro, mas exige rigor e dedicação semelhante ao meu trabalho oficial. São duas esferas que se complementam, pois como tenho um trabalho que me sustente, posso produzir o que eu gosto livremente e essa produção é um bálsamo para o cotidiano. Além disso, o trabalho que tenho é extremamente ligado a questões sociais, o que me faz fincar os dois pés no chão da realidade evitando que eu me perca em uma órbita artística delirante em torno de meu próprio umbigo.

De onde surgem os personagens que você desenha? Quem são eles?
Ultimamente o que desenho são metáforas de coisas que acredito. Durante muito tempo fazia desenhos mais espontâneos, às vezes ainda os faço quando estou no trânsito ou no telefone por exemplo. Mas atualmente, o que desenho e divulgo é fruto de uma mensagem, ou uma conclusão que tiro a respeito das lições da vida e que tento traduzir de modo implícito. Esse “modo implícito” é a lacuna onde se completa essa comunicação com quem vê o desenho, é onde se encaixa o histórico do observador e surge a leitura pessoal.

Como surgiu a idéia de fazer o vídeo "Tinta incrível"? A intenção é mostrar o seu processo de criação ou vai além disso?
Na verdade surgiu da coincidência da intenção de dois amigos em comum. Por um lado tinha o (músico) Parteum que queria fazer algo com minhas imagens, e de outro o Vébis Jr. (cineasta) que tinha a intenção de filmar o meu processo de trabalho. Então combinei com o Vébis de registrar a produção de um desenho e assim foi feito. A princípio pensei em pedir para o Parteum fazer uma trilha, mas como estava ouvindo direto a Mix Tape (Magnus Operandi) dele, comecei a prestar atenção nas músicas instrumentais e uma me chamou a atenção, o nome por coincidência (ou não) era “Tinta incrível”. Pedi a ele que cedesse a música e ele topou. Daí surgiu uma terceira figura, o montador Rafael Armbrust que fez a edição que considerei perfeita. Ao meu ver, toda essa afinidade produziu algo sincero e íntimo.

E como foi fazê-lo? Difícil, divertido?
Divertidíssimo. Uma curiosidade foi que no dia em que foram captadas as imagens do vídeo tinha gente visitando nosso antigo apartamento para uma possível compra e não é fecharam o negócio? Hehehe, acho que deu sorte! Imagina só, eles olhando o apartamento e rolando uma filmagem...Não devem ter entendido muita coisa!
- Além de fazer parte do Zinismo, recentemente você editou e publicou um fanzine chamado Manufatura... Qual a motivação de fazer isso e porque ainda escrever fanzine?
O Manufatura surgiu em um momento de algumas crises (no bom sentido).
A primeira foi que eu estava me questionando sobre a função da minha pintura, já que elas atingiam um número restrito de pessoas.
Isso fez com que desviasse meu foco para a ilustração e então comecei a fazê-las. Pois bem, a primeira ilustração derivou uma idéia para uma segunda e assim por diante, formando-se as sequências.
No meio do processo percebi que elas caberiam bem em um fanzine, já que seria um modo democrático, barato e eficiente para difundir o que estava fazendo. Sentia a necessidade de (além de divulgar meu trabalho) passar adiante as mensagens ou pensamentos que me levaram a gerar aquelas figuras.
Foi também um desafio tentar expressar tudo através só de imagens, já que gosto de escrever.

Qual a relação que a música tem com a "arte" que você faz?
Como desenhista devo muito à música já que se estou inserido neste meio (underground) e faço fanzines, foi porque tudo começou por uma preferência estética que teve início com o punk, depois com o skate e hardcore. Já tive banda, tocava guitarra e parei justamente pela opção de me dedicar mais ao desenho, mas volta e meia faço capas de CDs, cartazes etc . É engraçado pensar, mas é um ciclo de retro-alimentação, pois a música me inspira e às vezes retribuo essa inspiração com imagens para o próprio meio musical.
Além disso, gosto muito de música e ouço o tempo todo, ela me acompanha em tudo o que faço, não tem como negar que é uma relação muito forte.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

COTIDIANO






Leitura opcional a partir daqui

Como equilibrar suas expectativas cotidianas sem que a ansiedade lhe derrube?

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

MONSTROS



Desenhos em nanquim no caderno de esboços.





Leitura opcional a partir daqui:

A técnica da água suja é feita com nanquim diluído em água, aplicado em diversas camadas. Imagino que tem esse nome porque alguém teve em um passado não tão remoto a brilhante idéia de pintar o papel com a água suja do pote onde limpava o pincel. O efeito desta técnica me agrada muito, pois apresenta um aspecto de foto antiga e através dela posso trabalhar sombra, textura e volume.

Fiz estes desenhos tentando valorizar o gesto dos personagens, fazendo-os o mais humanos possível em contraste às deformações propositais de suas anatomias.
O que me motivou foi a questão das aparências na sociedade humana, que faz com que consideremos o diferente indigno ou incapaz de nossa empatia.
Quando digo diferente, não me restrinjo somente ao considerado "feio" ou fora do padrão estético, mas sim aos pré-conceitos que multiplicamos em nossas vidas tal qual metástase. Alteridade!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

ENTREVISTA SITE PUNKNET



Entrevista cedida ao site punknet em outubro de 2010!

Segue a reprodução:

Eduardo Zambetti

Talvez você já conheça Flávio Grão através das ilustrações feitas para alguns álbuns de bandas do circuito underground, talvez você tenha se deparado com seus desenhos em alguns shapes antigos, mas quem sabe você é daqueles aficcionados por Fanzines e já até trocou cartas com este artista multimidia...

Com seu recém lançado Zine " Concreto" circulando entre as mãos e mentes privilegiadas, Flávio Grão fala um pouco de seu trabalho na entrevista que segue:


Punknet - Você está lançando um novo Zine e sinceramente gostaria de saber em quantos projetos como este você anda trabalhando? Na sua trajetória como ”zineiro” quantos e quais já produziu?Qual foi o de maior repercussão e qual lhe agrada mais?
Grão - Há mais de dez anos fazia o fanzine The Answer em parceria com o amigo (Marcelo) Viegas, foi o primeiro fanzine sério que fiz, de música e cultura alternativa. Depois editei um fanzine de contos coletivo chamado Histórias para Ler no Banheiro (que durou 3 números) e por fim, o 333, que também era de contos e mais pessoal, que durou 6 números. Acabado o 333 # 6 tive um bloqueio de criatividade na escrita, ao mesmo tempo saí do trampo onde xerocava os zines e conheci a internet...hehe

No final de 2008 voltei à ativa com o ZINISMO, blog coletivo ou fanzine virtual feito com amigos.

No início deste ano lancei o MANUFATURA #1, fanzine de papel após 10 anos. Neste zine a idéia é trabalhar significados através de sequências de desenhos, sem palavras. No segundo semestre de 2010, quando estava com o MANUFATURA # 2 pronto para lançar, apareceu o convite (por parte dos artistas Kurru e Gaze) de participar da criação de um livreto pela editora Ôrganiza na mostra de arte urbana TRANSFER e assim surgiu o CONCRETO, que é um zine ou livreto de desenhos baseados em fotos e que trata um pouco da questão da convivência do ser humano influenciado pelo meio onde vive. Na sequência veio oportunidade de lançar o ZINISMO em papel, comemorando seus dois anos, projeto em que estou trabalhando atualmente. Além disso, estou cooptando desenhos para um zine de desenhos coletivo, chamado INTEGRAL e rascunhando um outro que é uma espécie de estudo aplicado de semiótica.

De todos estes zines, gostei muito de fazer o MANUFATURA # 1 porque nele acredito ter conseguido atingir os objetivos que havia me proposto, tanto em termos de conteúdo quanto de forma. Além disso, tive um retorno bacana por parte de pessoas e veículos de comunicação que admiro.

Nestes tempos cibernéticos e de comunicação virtual acelerada ainda há espaço para os impressos alternativos distribuídos de mão em mão ou através de carta... Isto seria apenas saudosismo ou uma ação de resistência no sentido crítico? Em sua opinião, qual a real função dos Fanzines?

Hoje em dia, com a internet se tornando popular, o fanzine adquiriu uma posição de gênero literário próprio, quem o faz, faz por uma opção consciente de um gênero independente, autoral e de pequena circulação. Mesmo porque, todos os zineiros que conheço, participam da internet de alguma forma, através de blogs, sites e outros. De qualquer forma, estes zineiros incuráveis encontram um prazer próprio em editar seu próprio veículo de comunicação na forma e com o conteúdo que bem entenderem. Considero o fanzine resistência considerando o aspecto financeiro, já que seus editores não ganham nada e não esperam lucro com sua produção e também uma resistência à banalização da imagem e da informação que vivemos atualmente.

Uma comparação do fanzinato (produtores, zines, público) atual com o dos anos 80 e 90 pode revelar o que? E uma comparação entre blogs e fanzines, é possível?

Não posso opinar muito sobre os fanzines dos anos 80 porque não os tive em mãos (risos)...hehe

Nos anos 90 os fanzines tinham um papel fundamental na divulgação da informação porque cobriam aquilo que as revistas (geralmente) não tinham capacidade ou interesse em cobrir e que geralmente era o mais sincero e autêntico em termos de produção artística.

Já nos anos 00, este papel de divulgação do dito “alternativo” de certa forma passou a ser feita pelos blogs ou sites de música altenativa. Sendo assim, atualmente os fanzines em tese deveriam percorrer caminhos mais inovadores, mais alternativos ainda em termos gráficos e de conteúdo. Creio que é por isso que os fanzines têm flertado cada vez mais com a arte.

Acredito que os blogs em comparação com os fanzines, possuam a vantagem de possibilitar recursos de multi-mídia e disponibilizar informação em tempo quase real. Já como desvantagem dos blogs, vejo o fato de que a maioria das informações da internet são consumidas e descartadas com a mesma velocidade que aparecem, e os fanzines entram justamente como uma opção a isso.

Já faz um tempo que circula o curta “Tinta Incrível” no qual um pouco de seu trabalho como ilustrador é revelado. Como surgiu a idéia deste vídeo? Como foi a concepção e produção?

O vídeo partiu de uma proposta do cineasta Vebis Jr que gostaria de produzir um vídeo com meus trabalhos. Fizemos o making-off da produção de um desenho e então entrei em contato com um outro amigo, que também já havia conversado comigo sobre fazer um trabalho junto, o músico Parteum que gentilmente cedeu a trilha. O mais legal é que a edição foi feita pelo Rafael Armbrust sem contato comigo ou mesmo com o Vébis, e não é que ele conseguiu juntar tudo de uma forma muito legal?

Além de suas manifestações artísticas desembocarem nos seus fanzines, qual a conexão existente entre o Grão ilustrador, escritor, músico, roteirista, etc?

A conexão é que há a mesma pessoa obcecada por trás destas produções que não consegue parar de criar. E esta pessoa utiliza diferentes linguagens para obter diferentes resultados de comunicação.

Quais outros artistas lhe servem como influência em todos os campos artísticos que você atua?

É difícil falar de influências porque considero que não sou influenciado só pela arte. Às vezes um gesto, uma cena real, uma atitude (como a do movimento punk ou do hardcore) pode influenciar mais que muitas referências puramente estéticas. Acho importante para o artista buscar referências para sua produção linguagens diferentes da que atua, por exemplo, um desenhista ser inspirado por uma música, ou um músico por um cineasta. Mas de qualquer forma, nas artes gráficas gosto do Gustave Doré, Escher, Lucien Freud, Francis Bacon, Robert Crumb, gosto também da Arte Russa (da época dos cartazes), do Concretismo e de quase todo tipo de histórias em quadrinhos.

Link direto para a entrevista aqui.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

ENTREVISTA SITE VISTA



O fanzine MANUFATURA recebeu uma resenha na Revista VISTA # 28.
Nesta resenha havia a citação de uma entrevista comigo no site da revista, que acabou não sendo publicada por alguns desencontros e questões de tempo e espaço.

No mês passado, porém, o equívoco foi desfeito e a entrevista foi publicada no site da VISTA.

Feita pelo fanzineiro/jornalista Ricardo Tibiu do blog Chiveta, segue abaixo reproduzida. Agradecimentos ao Tibiu pelo apoio de sempre!

Quando muita gente dava por encerrada a circulação de fanzines por aí, “culpa” da tal da internet, as folhas de papel têm voltado a “voar” por aí em envelopes. Elas cruzam o país, quiçá outras fronteiras, e encontram pessoas interessadas em absorver seu conteúdo – geralmente algo feito “à mão”. “Manufatura” é assim. Feito pelo veterano Flávio Grão ele tem uma tiragem limitada, mas que pode adentrar na “vilã” internet para chegar a um número infindável de pessoas. Esse e outros assuntos foram abordados na nossa conversa com o autor Grão, mestre na arte de produzir zines e cultura independente nos mais variados formatos. Confira a entrevista!

Qual foi o estalo que você teve que te levou a voltar a fazer um fanzine depois de 10 anos “parado”?
Grão: Nestes 10 anos de hiato fiquei me deslumbrando com a internet (risos). Brincadeira! No final dos anos 90 parei de fazer fanzines porque após publicar nove zines de contos – “Histórias Para Ler no Banheiro” e “333” – fiquei meio saturado de escrever e também porque saí do trabalho onde xerocava tais produções. Passei então a década dos “00” pintando, tocando e colocando alguns desenhos na internet.

Aí veio a volta...
Grão: Voltei a fazer fanzine no final do ano passado depois de uma crise – no bom sentido. Essa crise surgiu quando comecei a pensar criticamente no tempo que me dedicava para pintar os quadros (meses) e no destino deles, que geralmente iam parar na parede, da minha ou de outra casa, para serem vistos por um número mínimo de pessoas. A grande motivação para que eu faça arte é o prazer que há nesta atividade, mas tão importante quanto isso é a necessidade – como artista – de que esta produção circule e que pessoas a vejam; senão é como aquela banda que só ensaia e nunca faz show ou grava. Vira uma produção autista – um ato de comunicação não finalizado. Mediante estas reflexões comecei a produzir ilustrações em preto e branco porque transmitiam minhas idéias de modo mais rápido, ocupam menos espaço e são mais fáceis de serem reproduzidas. Os desenhos desta época começaram a gerar outros desenhos e formaram sequências. Foi aí que deu o tal estalo e decidi fazer o fanzine “Manufatura”, pois seria um modo de oferecer tais sequências em um formato legal, relativamente barato e sem depender de ninguém.

Eu tenho uma teoria de que só quem já fez fanzine sabe dar o devido valor a este muitas vezes subestimado veículo de informação. Será que é ranzinza demais eu pensar assim?
Grão: Sim, pode apostar que nós somos ranzinzas sim (risos). Essa subestimação vem da ignorância do senso comum que possui um ponto de vista equivocado que considera o fanzine como uma “sub-revista” ou uma “revista amadora” e não o reconhece como gênero autêntico e dotado de suas próprias características. Quase todos os fanzineiros que conheço hoje fazem fanzine por uma opção consciente. E isto quer dizer que eles desejam emitir suas opiniões sem rabo preso, circular em um número restrito e – quase sempre – seleto de leitores e, principalmente, publicar por prazer.

O “Manufatura” é um fanzine, praticamente, sem palavras. O chavão diz que uma imagem vale mais que mil palavras, será que sem a escrita, a arte visual estimula mais o pensamento livre?
Grão: Eu acredito que a palavra é um elemento a mais que pode ajudar a direcionar certas interpretações. E minha escolha pela ausência delas é justamente para que haja essa lacuna para o leitor colocar seu pensamento, sua própria interpretação.

Ainda pensando nisso de não haver textos no fanzine, fiquei imaginando uma “trilha sonora” pra ele e só cheguei a conclusão que deveria ser algo instrumental. O quê você acha que combinaria com seus desenhos?
Grão: Eu também imaginei algo instrumental. Se pudesse escolher seria algo entre o Tortoise e as músicas instrumentais do Fugazi.

Por usar o papel vergé, que tem pequenas ranhuras, você deu aos seus desenhos do “Manufatura” um “movimento”. As linhas parecem “frescas”, que foram feitas há pouco, sabe?! Todo esse processo, unido ao modo artesanal como foi composto, me convence de que na tela fria de um computador ou se feito em grande escala, sua arte perderia um pouco sua vida. Você concorda com isso?
Grão: Sim, concordo, mas caímos naquele velho parodoxo da qualidade X quantidade. Se por um lado a imagem na internet é mais “pobre”, por outro é mais democrática e mais pessoas podem ter acesso a ela. Futuramente vou disponibilizar o “Manufatura” para ser folheado online, pois não gostaria que a baixa tiragem impedisse o acesso a alguém que quisesse ler.

O “Manufatura” está em sua primeira edição, ela é limitada em uma tiragem de cem fanzines. Essa opção foi mais pensando no lado econômico, financeiramente falando, ou para valorizar o resultado final mesmo? E quando vem o próximo número?Grão: Pensei sim no lado econômico, mas também pensei no resultado final, já que poderia produzir uma quantidade maior com uma qualidade pior. Quando pensei na tiragem de 100 pretendi limitar o alcance que o zine teria em termos de distribuição, divulgação etc. Tem também o lance de quando alguém pegar em mãos entender que é um produto de tiragem baixa, limitada, coisa que nem todo mundo pensa quando pega um fanzine, mas que acontece com quem compra uma gravura.

Mesmo me considerando uma pessoa frustrada no skate, olhar para algumas escadas dos seus desenhos parecem ser convites para descê-las num rockslide...
Enfim, o skate te influencia de alguma maneira na hora de desenhar?
Grão: Andei de skate na época mais “wild on the streets” e tinha a pista de SBC como quintal de casa. Também sou meio frustrado como skatista, nunca andei muito bem... É interessante notar que quem já andou de skate tem no subconsciente esse lance, essa forma particular e poética de se relacionar com as estruturas da cidade. E como tenho esses pensamentos enquanto desenho não dá pra negar que há uma influência, né?!

E no geral, quem e o quê te influenciam artisticamente?
Grão: Tenho uma influência muito ampla, gosto de muitos artistas e por motivos diferentes, como tipos de traço, motivos, cores. Esta influência, porém, não se restringe às artes gráficas. Toda a cultura do hardcore, por exemplo, sempre me influenciou muito. Ultimamente tenho estudado um pouco de Filosofia Chinesa e acho que isso também tem pegado forte no meu desenho. Também tem a influência do ambiente em que vivo, no caso o caos concreto de São Paulo.

Cara, acho impossível folhear o “Manufatura” e não pensar nos traços do holandês M. C. Escher, apesar de achar que ele desafiava mais a gravidade que você. Pelo que sei você só foi conhecer o trabalho dele depois de comentarem a semelhança, né?! Você acredita que esse é um simples caso de coincidência ou, tal qual Jung teorizou, de sincronicidade?
Grão: Acredito na sincronicidade sim. Como sempre gostei de desenhar escadas e tinha esse interesse em subverter as perspectivas, uma hora ou outra eu ia flertar com o universo do Escher, mesmo sem o conhecer. Admiro muito o seu trabalho, pois ele alia três habilidades em alto grau: o rigor matemático, a técnica precisa e uma inspiração que transcende a lógica.

As pessoas adoram rótulos, termos, definições... Se uma arte está num determinado museu ela é considerada clássica, se em outro ela é chamada de contemporânea. Se tá num muro, street art, num vitrine à venda, comercial... Complicado, né? A arte de Flávio Grão seria melhor definida como?

Grão: Eu defino como uma arte arcaica e rude (risos). Brincadeiras a parte não fico preocupado em me encaixar ou definir em nenhuma dessas classificações. Desenhar sempre foi um modo de entender o mundo e de me relacionar com ele. Isso é o que mais importa. O rótulo na verdade mais limita do que qualquer outra coisa. Reconheço, porém, algumas características comuns aos meus desenhos que são marcantes ao ponto de enquadrá-los em um estilo próprio, entre elas posso citar a “subversão” das formas, algo de autobiográfico – dizem que sempre desenho a mim mesmo –, o traço forte e marcado e à forte presença de texturas enervadas, que lembram a madeira.

Você fez algumas capas de discos e arte para bandas. Quando você faz esse tipo de trabalho, você se guia levando mais em conta a sonoridade ou as letras?

Grão: Ambas, contudo, na maioria das vezes, os músicos já têm uma ideia mais ou menos pré-determinada do que querem, e acabo dando um toque meu. O mais legal é quando me deixam a vontade e rola algo que satisfaz as duas partes, o CD “Faces do Terceiro Mundo” foi assim, e foi um CD cuja arte muita gente elogiou.

E seu lado músico, como anda? Você já tocou em diversas bandas desde lá dos anos 90, não?
Grão: Sim. Sinceramente sou um péssimo guitarrista e só tive bandas porque contava com a paciência de alguns generosos amigos que me deixavam tocar nas bandas que formavam (risos). Mas como estes amigos estão no ABC Paulista e estou morando em São Paulo é uma coisa que no momento tornou-se inviável.

Como artista, qual foi o trabalho que mais te deixou satisfeito – ou orgulhoso – em termos de reconhecimento?
Grão: É difícil de escolher um só, o já citado “Faces do Terceiro Mundo” foi um deles, teve também um linha de Shapes que fiz no começo dos anos 90 que gostei muito de fazer e, mais recentemente, o vídeo “Tinta Incrível”.

A linha de shapes foi feita pra quem?
Grão: Para a SIMS, entre os atletas me lembro que estavam o Fabio Sleiman, Rafael Gomes, Rafael Cabral, Negretti, etc. Foi um total de oito shapes.

E o “Tinta Incrível”?
Grão: Foi feito com filmagem de Vebis Jr., montagem de Rafael Armbrust e trilha do Parteum!

Pra encerrar, quando se fala em fanzine a gente sempre fica meio nostálgico. Então te pergunto, você acha que ainda exista algo sincero e/ou espontâneo no “do it yourself” nos dias de hoje?
Grão: Acredito que sim. A maioria das produções no underground começa com todas estas características positivas. Só que elas vão apodrecendo na medida em que o ego dos artistas cresce e toma um lugar central na história o que é um passo para que surja esse câncer que são as castas ou panelas dentro do próprio underground. Tudo isso é uma contradição, visto que agindo desta forma se reproduz os mesmos mecanismos de exclusão existentes no mainstream aos quais o underground deveria ser justamente uma alternativa! É bem triste porque a cidade de São Paulo que deveria ser uma Meca cultural alternativa acabou se tornando uma cidade dividida em sub-cenas arrogantes e impenetráveis. Diferente de outros lugares em que o underground luta por uma causa comum, aqui a cena briga entre si, arruinando a sua própria essência. Mas temos de ser esperançosos porque temos muitos exemplos de pessoas que não se corromperam – e nem se corromperão – com falsas ilusões e deslumbramento, produzindo algo visceral e honesto.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

LIVRETO CONCRETO



Fui convidado pelos amigos Bruno Kurrú e Renan Gaze a participar do projeto Vivência da editora Ôrganiza na mostra de arte urbana TRANSFER.

A idéia do projeto era produzir livretos de artistas em tiragem limitada e além disso, promover encontros e diálogos entre eles.



A editora Ôrganiza estava com um espaço para a produção na Mostra Transfer com alguns equipamentos como xerox, guilhotina e outros materiais que possibilitava autonomia para que os artistas produzissem o seu material na hora e no local.

No dia 10 de setembro, com uma merecida pausa para o almoço produzimos o livreto CONCRETO, com tiragem de 60 unidades.



O interessante da produção, é que tendo acesso ao xerox, pude colocar em prática algumas idéias que não pude concretizar anteriormente pela distância entre o balcão e a bendita máquina. Uma destas idéias foi fazer uma capa com papel vegetal e poder fazer capas diferenciadas para todos os livretos.



Agradeço aos amigos Renan e Bruno pela convite, e principalmente pela iniciativa de pensar na arte de uma forma mais expansiva e coletiva.



+ sobre a editora ôrganiza:
http://editora-organiza.blogspot.com/

+sobre a mostra de arte urbana TRANSFER:
http://transfer.art.br/



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Resenha MANUFATURA



O blog cartundoounada fez uma breve resenha sobre o livreto MANUFATURA.

Este é o fanzine feito pelo Flávio Grão: Manufatura, um fanzine de suas ilustrações. Impresso em preto e branco no papel vergê, tem o tamanho A6 (10,5 x 14,8 cm) possui algumas narrativas sem textos, dadas pelas belas imagens. Vale a pena adquirir!


Recomendo ainda que conheçam o trabalho do Rodrigo e de seu amigo Pôneis em seu belíssimo fanzine LA PERMURA.