terça-feira, 23 de abril de 2013

7 DIAS DE NATAL


















Tendo em vista que em 2012 fiz uma longa e extenuante viagem de 23 dias, havia decidido que neste ano tentaria ir durante minhas férias para algum lugar onde pudesse realmente descansar.

Natal apareceu como primeira opção, pois tenho há algum tempo afinidades e ligações com a cidade que se iniciaram com a publicação de uma entrevista minha no saudoso fanzine LADO R em 2010. Esta publicação fez com que eu iniciasse a amizade com seus editores concretizada com a vinda do jornalista Leandro Menezes para São Paulo durante a Virada Cultural de 2012.

Fiquei sete dias na cidade e levei comigo um caderno, aquarela e nanquim. Adquiri este hábito de levar uma aquarela para viagem há cerca de um ano quando estava na Espanha e senti uma vontade irrefreável de tentar reproduzir as cores ou atmosfera do lugar nos desenhos.

No dia 08 de abril, já em terras potiguares o que imediatamente me chamou a atenção foi a cor do mar: um tom indecifrável entre o verde e o azul que tentei representar diversas vezes através da aquarela.
Fiz muitos passeios pela cidade, na maioria deles pude sentar de frente para o mar e pintar entre uma cerveja e outra sob o calor sempre acima dos 30 graus. Minha obsessão primeira era tentar apreender no caderno as cores do mar do Rio Grande do Norte.

Em um dos primeiros dias da viagem encontrei três dos editores do Lado R: Leandro Menezes, Dimetrius Ferreira e Rafael Medeiros.

 Leandro e Dimetrius tocam em um projeto musical chamado Mahmed para o qual eu havia cedido uma ilustração para a capa do primeiro álbum. Neste encontro mostrei para eles as aquarelas que estava fazendo sobre o mar de Natal e Dimetrius fez uma conexão que eu ainda não havia feito, a cor do mar que estava fazendo nas aquarelas era a mesma cor do desenho da capa do Mahmed.

Também fiquei impressionado com as falésias que consegui visitar em algumas praias do Rio Grande do Norte, um elemento que aprecio utilizar em alguns desenhos.

Pude conhecer pessoalmente também o artista gráfico Daniel Nec com quem já havia trocado alguma material e do qual me tornei fã pelo genial zine Memória do Psiconaut.  Havia combinado com ele de levar materiais para a troca e  minha grata surpresa foi receber quatro desenhos originais do citado zine.

Entre as várias voltas que dei com o Nec pela cidade, uma foi ao abandonado presépio de Natal projetado por Oscar Niemeyer onde na tarde do sábado (dia 14 de abril) nos encontraríamos com alguns grafiteiros locais. O local é reutilizado como moradia por algumas pessoas em situação de rua e como espaço de diversão e encontro de skatistas e artistas urbanos. A princípio a minha intenção neste passeio era fotografar ou talvez registrar o local com desenhos em meu caderno. Mas ao observar o Daniel pintando naquelas paredes brancas e lisas com pincel e tinta preta foi inevitável querer pintar também... A parede branca convidou e não é sempre que se pode fazer um desenho sobre um Niemeyer. Do outro lado da rua, contrastando com o abandono do Niemeyer, segue a todo vapor a construção do estádio para a copa em Natal. Idiossincrasias do Brasil.

Após sete dias retornei à Babilônia com o caderno cheio de desenhos e com a cabeça fervilhando de idéias. Guardo a lembrança de bons tempos com bons amigos e a vontade de voltar logo menos para ver o mar verde azulado (ou será azul esverdeado?).

domingo, 2 de dezembro de 2012

PINTURAS A OLEO DE ENDOAPOCALIPSE

 

(Texto extraído da versão em capa dura do EndoApocalipse)
Outras linguagens
 
Durante os desenhos de EndoApocalipse pintei duas telas a óleo representando as máscaras de madeira, principais ícones da história, uma feminina e outra masculina. Foi a primeira vez que trabalhando em desenhos de um zine flertei com outras linguagens ou técnicas utilizando os mesmo motivos. E a questão não foi algo do tipo “porque fazer?”, mas sim, “porque não?”. O resultado foi ótimo e com a pintura pude observar melhor como estas máscaras realmente seriam em termos estruturais se existissem. Estas pinturas permitiram também entender questões relativas às proporções dos personagens, além de funcionar como um bom momento de relaxamento, alternativo às dezenas de horas que passava debruçado sobre o papel desenhando com o nanquim.
Além da pintura, resolvi também desenvolver uma gravura com os temas do zine. Embora inicialmente tivesse pensado em fazer uma gravura em metal (água-forte), técnica sobre a qual tenho maior domínio, entendi que seria uma incoerência em termos de linguagem artística visto que os traços dos desenhos são grossos e assemelham-se a xilogravuras.
Além disso, surgiu a questão de que as máscaras da história são de madeira, logo, através de um silogismo pessoal totalmente arbitrário, entendi que a matriz da gravura também deveria ser em madeira.
A feitura da gravura foi decisiva na decisão de fazer a versão capa dura do zine, pois seria o formato ideal para acomodá-la.

 
 
 As pinturas foram finalizadas duas semanas após o lançamento dos zines (e do livro) e tendo todo contexto da produção. É interessante observar como elas se encaixam na leitura geral de tudo o que foi feito. De certa forma, acredito que elas se dispõem como figuras posteriores em localização temporal à “saga” retratada no zine. Na minha leitura pessoal, ambas representam a lembrança do conflito, seja através (no quadro vermelho) da máscara símbolo exposta como troféu ou relíquia de guerra, ou no quadro amarelo, através de uma figura saudosa dos tempos da “revolução” que não vingou.
 

domingo, 28 de outubro de 2012

LIVRO ENDOAPOCALIPSE



Está disponível para venda o livro EndoApocalipse  em versão capa dura.
O livro foi manufaturado utilizando técnicas variadas que vão desde a impressão digital à xilogravura.

Com tiragem de 30 cópias numeradas, EndoApocalipse traz a narrativa ilustrada (que será lançada em zine em breve), acompanhada de um texto extra que conta os aspectos da produção da história  (com esboços, imagens não utilizadas e etc) e de uma xilogravura assinada em papel japonês produzida exclusivamente para a edição.

O volume tem cerca de 50 folhas e vem acondicionado em uma capa dura costurada (produzida em uma tipografia com letras em “hot stamp”).

EndoApocalipse flerta com dois gêneros, que de modo contraditório, são simultaneamente próximos e se distanciam: o livro de artista e os fanzines.
Neste momento serão vendidas apenas 15 cópias deste livro.

Em uma ou duas semanas sairá a versão em zine com tiragem de 200 cópias (em parceria com a editora @tralha lab) que contém  apenas a narrativa gráfica.

Abaixo algumas imagens do livro:





 




segunda-feira, 28 de novembro de 2011

LIVRO TUDO QUE É GRANDE SE CONSTRÓI SOBRE MÁGOA

CAPÍTULO I - O CONVITE.

No início do ano foi convidado pelo pessoal da UGRA PRESS (responsável pela publicação do Anuário de Fanzines) para ilustrar o primeiro livro do escritor Leandro Márcio.

O livro é uma coletânea de contos, alguns inéditos e outros previamente publicados no blog Dissolve Coagula. Leandro foi vocalista e tocou junto com o Douglas (também da UGRA) nas bandas paulistas de hardcore Life is a Lie e Parental Advisory.
A idéia resumida era ilustrar o livro com um desenho por capítulo em um prazo que inicialmente pareceu me apareceu apertado. Aceitei.

A maior razão que pesou na minha aceitação ao convite foi o trabalho, paixão e cuidado que os dois têm por livros. Durante nossas conversas iniciais o projeto já estava bem avançando em termos de idéias, como seriam feitas as encadernações, tipo de papel, material da capa e diagramação (o Douglas é um obcecado por isto, acreditem). Como já havia visto o excelente trabalho da dupla no I Anuário de fanzines, sabia que eles fariam o que estavam falando.

CAPÍTULO II- A ILUSTRAÇÃO.

Conversamos um pouco sobre minhas idéias sobre o formato de ilustração para o tamanho de página e formatação do livro e chegamos a um acordo rápido.

O texto digitado do livro veio por e-mail, o processo de produção está resumido na seguinte declaração que dei há alguns meses para o site da UGRA:

“Separei o livro em pequenos pedaços grampeados e ia lendo no trânsito para o trabalho. Quando via alguma frase que sugeria um desenho grifava. Quando surgia uma imagem, desenhava rápido, no colo e no trânsito essas idéias iniciais. Depois que li o livro inteiro e tinha essas idéias, em casa (e com calma) passei para o lápis e finalizei com nanquim e pincel na mesa de luz. Que o Detran não me ouça.”






CAPÍTULO III - A PRODUÇÃO DO LIVRO.

Seguem as fotos, elas falam por tudo.



























CAPÍTULO IV - O LANÇAMENTO.
O livro será lançado provavelmente no dia 10 de dezembro. São apenas 100 cópias. Oportunamente colocarei mais dados sobre o evento. No momento o que posso dizer... Puta orgulho de participar deste projeto!

sábado, 19 de fevereiro de 2011

ENTREVISTA - FANZINE LADO R- NATAL RN

No início do ano passado dei uma entrevista ao pessoal do fanzine Lado R, de Natal (RN). A edição # 9 saiu em setembro de 2010, se não me engano com tiragem 2000 cópias, gratuitas. Se você não conhece este, que é um dos melhores fanzines da atualidade, corra atrás!



PS: Para esta edição cedi um desenho para a capa também.

Entrevista feita por Leandro de Menezes.

Stewart Home define a arte como "inimiga do povo". O que pensa sobre essa provocação?
Penso que essa afirmação toma sentido se você pensar na arte como algo massificado ou enfiado goela abaixo do povo, mas acontece que o próprio conceito de arte é algo discutível.
A arte nos nossos tempos tem sido colocada em um pedestal inatingível, quase místico relegando ao povo uma posição passiva e de consumo. Penso que esse é um problema, pois a arte deveria ser feita também pelo povo, o feitio da arte em si é um processo poderoso que ajuda entender ao mundo, a si mesmo e a tornar a vida mais agradável.
São Paulo é uma cidade que oferece de modo democrático arte para todos - já que as ruas são tomadas pela arte urbana e há eventos gratuitos de todo tipo, mas ainda prevalece uma postura de “receber” ao invés de produzir a arte.
É por isso que a produção de arte popular (no fundo) tem um aspecto político de resistência, pois contra tudo e todos, apesar da falta de grana e de turnos pesados de trabalho, ainda há quem troque a novela por um cavaquinho para formar rodas de samba, só pelo prazer de fazer arte.
Eu acredito que a arte é amiga do povo. Ajuda a amansar os corações mais brutos, a entender sem falar, a pensar que existe algo mais que não se explica e até a esvaziar os bares. Não é a toa que o direito ao lazer está na constituição...

Você se considera um artista?
Sim, já que produzo arte.
Mas é complicado se rotular como artista... dá a impressão que se é um cara excêntrico, alheio à realidade e pelo contrário, neste monte de cascas que formam meu ego, acredito que em primeiro lugar venha o cidadão e o trabalhador. Depois vem o fato de que produzo arte como um modo de entender a vida, de responder a meus anseios pessoais e me relacionar com o mundo.
- Como você ganha a vida? (ganha dinheiro fazendo o quê?)
Sou formado em Letras e Pedagogia e atuo na educação há dez anos, hoje dirijo uma escola infantil no Jardim Ângela em São Paulo.
A arte não me dá dinheiro, mas exige rigor e dedicação semelhante ao meu trabalho oficial. São duas esferas que se complementam, pois como tenho um trabalho que me sustente, posso produzir o que eu gosto livremente e essa produção é um bálsamo para o cotidiano. Além disso, o trabalho que tenho é extremamente ligado a questões sociais, o que me faz fincar os dois pés no chão da realidade evitando que eu me perca em uma órbita artística delirante em torno de meu próprio umbigo.

De onde surgem os personagens que você desenha? Quem são eles?
Ultimamente o que desenho são metáforas de coisas que acredito. Durante muito tempo fazia desenhos mais espontâneos, às vezes ainda os faço quando estou no trânsito ou no telefone por exemplo. Mas atualmente, o que desenho e divulgo é fruto de uma mensagem, ou uma conclusão que tiro a respeito das lições da vida e que tento traduzir de modo implícito. Esse “modo implícito” é a lacuna onde se completa essa comunicação com quem vê o desenho, é onde se encaixa o histórico do observador e surge a leitura pessoal.

Como surgiu a idéia de fazer o vídeo "Tinta incrível"? A intenção é mostrar o seu processo de criação ou vai além disso?
Na verdade surgiu da coincidência da intenção de dois amigos em comum. Por um lado tinha o (músico) Parteum que queria fazer algo com minhas imagens, e de outro o Vébis Jr. (cineasta) que tinha a intenção de filmar o meu processo de trabalho. Então combinei com o Vébis de registrar a produção de um desenho e assim foi feito. A princípio pensei em pedir para o Parteum fazer uma trilha, mas como estava ouvindo direto a Mix Tape (Magnus Operandi) dele, comecei a prestar atenção nas músicas instrumentais e uma me chamou a atenção, o nome por coincidência (ou não) era “Tinta incrível”. Pedi a ele que cedesse a música e ele topou. Daí surgiu uma terceira figura, o montador Rafael Armbrust que fez a edição que considerei perfeita. Ao meu ver, toda essa afinidade produziu algo sincero e íntimo.

E como foi fazê-lo? Difícil, divertido?
Divertidíssimo. Uma curiosidade foi que no dia em que foram captadas as imagens do vídeo tinha gente visitando nosso antigo apartamento para uma possível compra e não é fecharam o negócio? Hehehe, acho que deu sorte! Imagina só, eles olhando o apartamento e rolando uma filmagem...Não devem ter entendido muita coisa!
- Além de fazer parte do Zinismo, recentemente você editou e publicou um fanzine chamado Manufatura... Qual a motivação de fazer isso e porque ainda escrever fanzine?
O Manufatura surgiu em um momento de algumas crises (no bom sentido).
A primeira foi que eu estava me questionando sobre a função da minha pintura, já que elas atingiam um número restrito de pessoas.
Isso fez com que desviasse meu foco para a ilustração e então comecei a fazê-las. Pois bem, a primeira ilustração derivou uma idéia para uma segunda e assim por diante, formando-se as sequências.
No meio do processo percebi que elas caberiam bem em um fanzine, já que seria um modo democrático, barato e eficiente para difundir o que estava fazendo. Sentia a necessidade de (além de divulgar meu trabalho) passar adiante as mensagens ou pensamentos que me levaram a gerar aquelas figuras.
Foi também um desafio tentar expressar tudo através só de imagens, já que gosto de escrever.

Qual a relação que a música tem com a "arte" que você faz?
Como desenhista devo muito à música já que se estou inserido neste meio (underground) e faço fanzines, foi porque tudo começou por uma preferência estética que teve início com o punk, depois com o skate e hardcore. Já tive banda, tocava guitarra e parei justamente pela opção de me dedicar mais ao desenho, mas volta e meia faço capas de CDs, cartazes etc . É engraçado pensar, mas é um ciclo de retro-alimentação, pois a música me inspira e às vezes retribuo essa inspiração com imagens para o próprio meio musical.
Além disso, gosto muito de música e ouço o tempo todo, ela me acompanha em tudo o que faço, não tem como negar que é uma relação muito forte.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

COTIDIANO






Leitura opcional a partir daqui

Como equilibrar suas expectativas cotidianas sem que a ansiedade lhe derrube?